Mestre Almeida, pouco a pouco, tranformou o cavalo com movimentos precipitados num cavalo com uma passada regular. A mesma coisa aconteceu em trote: sempre calmamente, com exercícios simples e sem constrangimento. Pouco a pouco e com uma sensação de facilidade, o cavalo tornou-se cada vez mais reunido sem parecer aperceber que os exercícios eram cada vez mais complicados. Primeiro um pouco de ladear sem incurvação, em seguida uma espádua adiante. Depois uma espádua a dentro, até quatro pistas se fosse preciso. Estes exercícios foram-se alternando aos dois lados, para mais tarde alternar a espádua a dentro pela « Kruppeherein » (garupa a dentro), para acabar no ladear.
Tudo isto foi possível porque os exercícios se realizaram numa tranquilidade e calma absolutas e como seguindo-se um a outro com naturalidade.
Este trabalho concentrado trouxe o equilibrio do qual o cavalo precisava, tanto física como mentalmente. Essa transformação deslumbrante realizou-se numa hora apenas.
CAVALO DE COMPETIÇÃO
A participante seguinte chegou claramente com outro objectivo. Esta cavaleira queria um trabalho mais complicado. E mais uma vez verificámos a mesma imagem. Todo o equilíbrio do cavalo foi modificado apenas com exercícios de base: de extensão e de flexão. E pudemos observar que o cavalo se tornou cada vez mais reunido.
A consequência foi que os exercícios mais difíceis como piruetas e piafe, fossem sentidos como naturais pelo cavalo. E mais uma vez reinava no picadeiro a atmosfera de concentração total e serenidade deste professor.
PURO SANGUE
A cavaleira seguinte era uma jovem de apenas 14 anos e montava um cavalo com muito sangue, temperamento e sensibilidade. Como é que esse professor português iria trabalhar aquele cavalo complicado? Cavalo e cavaleira pareciam inexperientes e nervosos. Mas aqui também o professsor conseguiu resolver o problema: amavelmente e com muita paciência tentou ajudar a sua aluna jovem, que precisava duma tradução flamenga das explicações em francês, realizada pela sua assistente. Desta vez também o espectador viu aparecer calma e equilíbrio à medida que a lição prosseguia. Os movimentos curtos e precipitados do princípio tranformaram-se em lindos andamentos. Tudo isso deslumbrou os espectadores presentes.
À primeira vista, e para um espectador pouco atento, todos esses exercícios e toda a maneira de resolver problemas completamente diferentes, pareciam iguais. Mas não era assim: toda a fineza, a subtilidade e o profissionalismo deste novo mestre que íamos descobrindo residia no seu enorme poder de adaptação e de observação de cada novo par cavalo – cavaleiro. Para cada novo caso, e segundo as possibilidades físicas do cavalo, do seu nível de aprendizagem, da sua impulsão, do seu temperamento e de eventuais problemas, esse professor encontrava sempre a maneira para resolver tudo. E tudo isso passava-se numa atmosfera de falsa simplicidade.
Foi um dia apaixonante: compreendíamos cada vez melhor o seu procedimento: um trabalho feito com calma e numa sequência estruturada de exercícios sucessivos, eliminando qualquer constrangimento. Os espectadores descobriam que a espádua a dentro é um exercício primordial para descontrair as espáduas do cavalo, e a flexão e incurvação dorsal para a entrada dos posteriores e a flexibilidade do cavalo. Isto nao surpreende quando se sabe que durante muitos anos este instructor teve lições com o grande mestre Nuno Oliveira. Esse mestre, a exemplo de « La Gueriniere » (que, no Século 18, inventou a espádua a dentro) consagrou muita atenção à execução correcta deste exercício. Apesar disso, o mestre de Almeida não quer que o considerem como imitador directo de Nuno Oliveira. Pedro de Almeida elogia os representantes do ensino contemporâneo, por exemplo Klaus Balkanhol.
No entanto, a sua aproximação, construção, e maneira de trabalhar são mais parecidas com o espírito clássico do Século 18. Saltam à vista a sua tranquilidade e paciência, a sua aspiração a eliminar qualquer constrangimento. Na opinião deste mestre, a modéstia e a perseverança deveriam ser as principais características do cavaleiro. Durante a lição, os cavalos nao são montados para diante de maneira muito espectacular, mas pelo trabalho calmo e sistemático adquerem tanto equilíbrio e flexibilidade que o movimento para diante aparece automaticamente.
ÚLTIMA LIÇÃO
O dia terminou-se por uma lição com a dona da casa. O seu lusitano já conhecia os exercícios mais difíceis mas faltava precisamente um pouco de flexibilidade.
Mais uma vez o saber do mestre con/-*seguiu resolver os problemas. Ao fim do dia, perguntamo-nos qual era, ao fim e ao cabo, a diferença entre a técnica deste mestre português e a maneira de trabalhar os cavalos no norte da Europa. A resposta já a encontramos ao repensar neste dia de trabalho.
CONCLUSÃO
Por um lado a sua aproximação é simplesmente tradicional, até clássica. Por outro lado o seu objectivo é certamente dirigido para a prática contemporânea. Mas, como todos sabemos, muitos caminhos levam a Roma. Fomos testemunhas, com muito prazer, de um percurso português.
O Senhor Pedro de Almeida vem regularmente à Bélgica para ensinar. Qual é a vantagem de seguir as aulas dele? A sua experiência com cavalos ibéricos é uma oportunidade para todos os propriétários destes cavalos. O seu método clássico, em combinação com o seu apreço do ensino desportivo, tem seguramente uma acção positiva, que já fez as suas provas.
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